Diocese
de Itapeva

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Padroeira

Padroeira

A história da padroeira da Catedral e da Diocese de Itapeva está ligada à devoção a Sant’Ana, esposa de São Joaquim, os pais da Virgem Maria e avós de Jesus. Essa devoção tem suas origens na Tradição Cristã, especialmente no contexto da veneração dos santos. Embora a Bíblia não mencione diretamente Sant’Ana e São Joaquim, a tradição cristã se baseia em textos apócrifos, como o Protoevangelho de Tiago, onde encontramos a narrativa sobre esse casal.

Segundo essa tradição, Ana e Joaquim eram um casal piedoso, já em idade avançada e sem filhos. Joaquim era humilhado e Ana se lamentava, pois não haviam gerado um filho para Israel. Os filhos eram entendidos como uma bênção especial de Deus, e a ausência deles era considerada uma maldição. Joaquim então se retirou para o campo, deixando Ana em Jerusalém, lamentando sua condição, até que um anjo a visitou e anunciou que ela conceberia. Joaquim também recebeu a visita de um anjo e a orientação para reencontrar sua esposa na cidade. O casal se reencontrou sob a Porta Dourada e, no tempo certo, Ana deu à luz uma menina, a quem chamou Maria, que mais tarde se tornaria a Mãe de nosso Salvador, Jesus Cristo.

A figura de Sant’Ana é especialmente venerada como padroeira das mães e das mulheres grávidas, enquanto São Joaquim é frequentemente invocado como protetor das famílias. Ambos são considerados os padroeiros dos avós.

Sant’Ana é invocada em situações de urgência doméstica, na proteção aos casamentos, às parturientes, aos recém-nascidos, ao aleitamento, à viuvez; é também padroeira dos professores, curadora contra doenças contagiosas, invocada em incursões arriscadas nas florestas e, em especial, nas regiões voltadas à busca e extração de minérios.

A devoção chegou ao Brasil trazida pelos portugueses, tanto pelo clero regular quanto pelos colonizadores. As primeiras imagens provavelmente vieram ao mesmo tempo, sendo veneradas nas casas e nas igrejas.

A mais antiga manifestação conhecida dessa devoção no Brasil encontra-se no primeiro poema escrito na América Portuguesa por José de Anchieta, em 1563. A primeira capela erguida em honra à santa em terras brasileiras foi construída em 1590, obra de um castelhano, Alonço Pellaes, no termo da vila de São Vicente. Os paulistas levaram a devoção para Minas Gerais com os bandeirantes, que carregavam a imagem de Sant’Ana em seus “oratórios ambulantes”.

No estado de São Paulo, essa devoção se propagou com mais força por meio do primeiro governador da Capitania de São Paulo, Dom Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão, 4º Morgado de Mateus (1722–1798). Após a expulsão dos jesuítas do Brasil em 1760, por ordem do Marquês de Pombal, o governador se instalou no colégio dos jesuítas — o melhor prédio da época e local de fundação da cidade de São Paulo. Católico e devoto de Sant’Ana, ele teve um sonho: nela, Sant’Ana lhe apareceu e manifestou seu desagrado. No sonho, revelou-lhe o local onde uma imagem sua, perdida havia dez anos, estava guardada em um caixote em um cubículo. No dia seguinte, a imagem foi realmente encontrada conforme revelado no sonho. Como graça adicional, chegaram notícias da descoberta de minas de ouro no rio Tibagi, fato que foi interpretado como um sinal da intercessão de Sant’Ana, associada às minas por ser considerada guardiã do ouro em seu ventre, ao gerar Maria, o precioso tesouro por meio do qual Deus veio habitar entre nós.

Devido a esses dois felizes achados — a imagem perdida e o ouro —, o governador decidiu celebrar uma grande festa em louvor à Gloriosa Senhora Sant’Ana, consagrando-a como padroeira da Capitania de São Paulo. Doze anos mais tarde, em 1782, o Papa Pio VI oficializou Sant’Ana como padroeira da terra paulista, a pedido dos portugueses. Essa designação permaneceu até 2008, quando, a pedido do Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer ao Papa Bento XVI, o Apóstolo São Paulo foi proclamado padroeiro da cidade, da unidade federativa e da arquidiocese homônima.

Sua veneração como padroeira da Capitania foi levada à freguesia de Faxina, que mais tarde se tornaria o município de Itapeva. Em 1770, o governador Dom Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão escreveu ao fundador de Itapeva, Antônio Furquim Pedroso, solicitando que não substituísse a devoção a Sant’Ana pela de Nossa Senhora dos Prazeres, devoção fortemente trazida pelos tropeiros que passavam por Itapeva com destino a Sorocaba.

A imagem oficial de Sant’Ana que se encontra na catedral foi entalhada em pinho de riga policromado e veio de Hamburgo, na Alemanha, em 1898.

A iconografia da imagem de Sant’Ana sentada indica uma posição de sabedoria, transmissão do conhecimento e proteção à sua filha Maria. Segundo a tradição simbólica, os Doutores da Igreja — como Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e Santa Teresa de Ávila — são frequentemente representados sentados para simbolizar sua autoridade como mestres da fé e teólogos. A posição sentada transmite a ideia de ensino, reflexão e sabedoria.

Os pés de Sant’Ana sobre um escabelo (um pequeno banco ou apoio) representam sua dignidade e seu papel especial na história da salvação. É um sinal de honra, respeito e autoridade. A elevação dos pés também simboliza sua pureza e triunfo espiritual.

Maria, representada como uma criança ao lado de Sant’Ana, simboliza a inocência da Virgem e a educação virtuosa que recebeu de sua mãe. Sua posição em pé indica a preparação para sua futura missão. Suas mãos sobre o peito expressam oração, devoção e fé profunda — um gesto de humildade, amor divino, caridade e união mística com Deus.

A cor laranja nas vestes ou ao redor de Sant’Ana simboliza sua missão como portadora do conhecimento divino e educadora na fé. A cor branca das vestes de Maria representa a pureza, enquanto o cinto dourado simboliza integridade, castidade, realeza e divindade, expressando sua dignidade real como Rainha do Céu e Mãe de Deus.

O livro aberto nas mãos de Sant’Ana, mais do que um instrumento do saber, é um canal de comunicação, destinado a Maria e também ao fiel que contempla a imagem.

Os dizeres “A virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamarão com o nome de Emanuel” (Isaías 7,14) referem-se a um dos principais textos que fundamentam a doutrina do nascimento virginal de Cristo.

A devoção a Sant’Ana difundiu-se de tal forma que a Igreja lhe reservou o título de “Senhora”, honra antes conferida apenas à sua filha. Por isso, muitos católicos a chamam de “Senhora Sant’Ana”. Ela também é patrona da Casa da Moeda do Brasil, por designação de Dom João VI, seguindo uma tradição portuguesa, em que os moedeiros de Lisboa administravam a Confraria de Sant’Ana da Sé. Considerada exímia gestora e financista, Sant’Ana dividia o salário do esposo em três partes: uma para a manutenção da família, outra para o culto e a terceira para a ajuda aos pobres.

Sua festa litúrgica foi estabelecida em 26 de julho pelo Papa Gregório XIII, em 1584, e o Papa Leão XIII — cujo nome de batismo era Gioacchino (versão italiana de Joaquim) — estendeu a celebração a toda a Igreja em 1879. Nesse mesmo dia também se comemora o Dia dos Avós, em honra aos avós de Jesus.

Em Itapeva, o dia da padroeira é feriado municipal desde 1976. Padroeira dos avós e associada às minas por ser a guardiã do ouro em seu ventre na forma da Virgem Maria, Sant’Ana é também padroeira da cidade de Itapeva, que possui a maior jazida de filito do Brasil, sendo referência em mineração no país e reconhecida como a capital dos minérios.