Há um silêncio que antecede o mistério. Não é o silêncio vazio, aquele que apenas falta palavras. É, antes, a plenitude de uma presença tão grande que nenhuma linguagem consegue contê-la. Acabamos de celebrar a solenidade de Corpus Christi, e com ela, a abertura do Triênio Eucarístico de nossa Diocese. Tanto a festa hodierna, como a preparação que iniciamos rumo aos 60 anos de nossa Igreja Particular, não estão meramente recordando um evento distante no tempo; ela está se reconhecendo e olhando-se profundamente no espelho. A Eucaristia é esse espelho luminoso onde a Igreja descobre o seu próprio rosto — aquele rosto que é a sua identidade mais verdadeira, mais profunda, mais inalienável.
São João Paulo II, com a sua intuição profética, deixou-nos uma frase que é o coração pulsante de tudo o que somos: “A Igreja vive da Eucaristia. Esta verdade não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja”. Nós não somos uma instituição que, por acaso, celebra um rito. Somos um povo que nasce do rito que celebra. A identidade da Igreja não se constrói sobre alicerces de estatísticas ou de estratégias pastorais. A identidade da Igreja nasce — sempre — de um pedaço de pão partido e repartido, que é o próprio Senhor Ressuscitado, vivo e presente entre nós.
Assim como o pão que a nossa mãe preparava com as suas mãos não era apenas alimento, mas um gesto de cuidado, de presença, de amor encarnado, também a Eucaristia não é algo imóvel e silencioso no altar. É um pão vivo que nos olha, que nos desinstala das nossas certezas cômodas, que nos convida a ‘metamorfosear’ as nossas próprias mesas em espaços de verdadeira comunhão.
E que Corpo é este que nos é dado? É o Corpo Ressuscitado e Glorificado de Cristo, aquele que transcende toda a fragilidade humana, que está sentado à direita do Pai, cheio de glória e poder. Mas Jesus, na sua infinita sabedoria e no seu amor sem medida, escolheu esconder-Se sob o sinal mais simples, mais frágil, mais humano: o pão. Não porque o seu Corpo seja frágil — pois está glorificado e imortal — mas porque quer encontrar-nos onde realmente estamos, na nossa pobreza, na nossa fome, na nossa sede de ser amados. A Eucaristia que recebemos é o alimento dos pobres, o fruto do suor humano, algo que se desfaz nas nossas mãos e se consome no nosso interior.
Nesta escolha divina de humildade e de proximidade absoluta, a Igreja reconhece o seu chamado mais profundo, a sua vocação mais verdadeira: a vocação à santidade. E a santidade não é uma fuga do mundo, um isolamento nos mosteiros da alma. A santidade é a transformação do mundo pelo amor. A santidade passa pela comunhão viva com Jesus Eucarístico, que nos configura à sua imagem e nos capacita para amar como Ele amou — sem cálculo, sem reserva, até ao fim. Passa pela entrega total, pela abnegação generosa, pela disposição de se deixar partir como o pão, para que outros vivam. Uma Igreja que, alimentada pelo corpo glorificado de Cristo, não pode esconder-se atrás de muros de medo ou de autoproteção. Tem de se expor como testemunha viva de um amor que não conhece fronteiras, que cura as feridas mais profundas, que acolhe o rejeitado, que abraça o perdido. Nesta santidade vivida, encarnada nas ruas e nas casas, a Igreja torna-se sacramento vivo do amor redentor de Cristo para o mundo inteiro.
Quando saímos em procissão pelas ruas no dia de Corpus Christi, não exibimos um ostensório banhado de ouro ou prata, nem mesmo e tão somente um objeto de veneração. Proclamamos, com os nossos passos, com o nosso silêncio, com a nossa presença, uma verdade que o mundo esqueceu: que o amor de Deus não ficou confinado aos espaços sagrados das igrejas. O amor de Deus desceu à rua, pisou o asfalto quente das cidades, misturou-se com o pó das nossas estradas. A Eucaristia é o sacramento da proximidade absoluta.
O saudoso Papa Francisco, com aquela profunda sensibilidade pastoral que o caracterizava, alerta-nos para uma verdade que nos transforma completamente: “A Eucaristia, embora seja a plenitude da vida sacramental, não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio poderoso e alimento para os fracos”. Nesta palavra está contido o coração de tudo. A Eucaristia nivela-nos por cima, elevando-nos à dignidade de herdeiros da promessa de salvação. E é diante desta realidade que contemplar Jesus neste sublime sacramento se torna um exercício de conversão profunda. Diante daquele sinal sagrado e silencioso, caem as nossas máscaras, desmoronam-se as nossas pretensões. Ali, não há lugares de honra nem títulos de glória. Ali, somos todos — ricos e pobres, sábios e simples — mendigos da mesma graça. Neste silêncio adorador, reconhecemos quem realmente somos: filhos e filhas de um Pai que nos ama não pelo que fazemos, não pelas nossas realizações, mas simplesmente pelo que somos.
Com este Triênio Eucarístico em nossa Diocese, somos convidados a um exercício de profunda transformação interior. Somos chamados a reconhecer o mistério que ele encerra e que nos envolve inteiramente, que nos penetra, que nos refaz. O pão consagrado que adoramos torna-se a nossa lição de vida: aprendemos com ele a ser pão uns para os outros, a nutrir, a sustentar, a dar-nos inteiramente.
A Igreja que nasce desta Eucaristia é chamada a ser, no mundo, um lugar de hospitalidade radical e sem limites. Um lugar onde cada homem e cada mulher — ferido pelas dores da vida, perdido nos labirintos da existência, faminto de amor verdadeiro — possa encontrar finalmente a mesa posta, o pão repartido, o amor que não discrimina, que não exclui, que acolhe sem condições.
Este é o desafio silencioso que o pão consagrado nos apresenta: sermos nós mesmos o pão que o mundo necessita. Sermos a Igreja partida e repartida, até que ninguém fique de fora do banquete da vida. Até que a promessa de Cristo — “Eu estarei sempre convosco” — se realize não apenas nos nossos altares, mas também nas ruas, nas casas, nos corações de todos aqueles que ainda buscam, desesperadamente, sentir-se amados.
Dom Eduardo Malaspina